A festa do Baptismo do Senhor encerra solenemente o tempo do Natal e introduz-nos plenamente na vida pública de Jesus. Depois de O contemplarmos como Menino em Belém e de O reconhecermos como Luz das nações na Epifania, a Igreja convida-nos agora a fixar o olhar num momento decisivo: Jesus desce às águas do Jordão e, com esse gesto simples e profundamente significativo, dá início à sua missão salvadora.
Este acontecimento não é apenas uma recordação histórica, mas uma revelação do mistério de Cristo e, ao mesmo tempo, uma luz para compreendermos o nosso próprio baptismo.
Jesus no Jordão: um gesto que surpreende
Os Evangelhos sinópticos narram como Jesus, vindo da Galileia, se aproxima de João para ser baptizado. A cena é desconcertante: Aquele que não conheceu o pecado coloca-se na fila dos pecadores, misturando-se com o povo que procura conversão e perdão.
João Baptista apercebe-se disso de imediato e resiste. Ele, que anuncia um baptismo de arrependimento, reconhece que Jesus não precisa de purificação. No entanto, Cristo insiste:
«Convém que assim se cumpra toda a justiça.»
Com estas palavras, Jesus revela o sentido profundo do seu gesto: assumir plenamente a condição humana, carregar sobre si as fragilidades do homem e iniciar o caminho que o conduzirá até à cruz.
A manifestação da Santíssima Trindade
No momento do baptismo acontece algo extraordinário. Os céus abrem-se, o Espírito Santo desce sobre Jesus em forma de pomba e a voz do Pai faz-se ouvir claramente:
«Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência.»
Aqui manifesta-se de forma luminosa o mistério da Santíssima Trindade:
- O Filho, que se mergulha nas águas;
- O Espírito, que desce e repousa sobre Ele;
- O Pai, que O proclama publicamente como seu Filho amado.
Este momento não revela apenas quem é Jesus, mas também quem é Deus: comunhão de amor que se entrega ao mundo.
Porque quis Jesus ser baptizado?
O baptismo de Jesus não foi para Ele uma purificação, mas uma consagração. Ao entrar no Jordão, santificou as águas e preparou-as para se tornarem instrumento de salvação para toda a humanidade.
Jesus aceita o baptismo:
- Para se solidarizar com os pecadores;
- Para antecipar a sua entrega total na cruz;
- Para inaugurar a sua missão como Servo obediente ao Pai;
- Para abrir o caminho do Baptismo cristão, que nos torna filhos de Deus.
Desde esse momento, a água deixa de ser apenas um símbolo de limpeza exterior e torna-se sinal eficaz de vida nova.
João Baptista: a voz que prepara o caminho
João Baptista ocupa um lugar único na história da salvação. Profeta austero, pregador da conversão e testemunha fiel da verdade, foi enviado para preparar os corações e anunciar a vinda do Messias.
A sua mensagem era clara e exigente: conversão verdadeira, frutos visíveis e um coração disponível. João sabia que a sua missão não era atrair atenções para si próprio, mas apontar para Cristo:
«É necessário que Ele cresça e que eu diminua.»
Por isso, ao baptizar Jesus, a sua missão atinge o ponto mais alto: o Precursor apresenta o Salvador.
Do Jordão ao deserto: fidelidade e obediência
Após o baptismo, o Espírito conduz Jesus ao deserto. Aí, na solidão e no jejum, enfrenta a tentação e reafirma a sua total fidelidade ao Pai. Onde outros falharam, Jesus permanece firme.
Este episódio mostra-nos que o baptismo não elimina as provações, mas nos fortalece para as enfrentar. A vitória de Cristo sobre o tentador antecipa a vitória definitiva da Páscoa.
O nosso baptismo à luz do Baptismo do Senhor
A festa do Baptismo do Senhor é também um convite a recordar e renovar o nosso próprio baptismo. Por ele:
- Fomos libertados do pecado;
- Nascemos para uma vida nova;
- Fomos feitos filhos de Deus;
- Passámos a fazer parte da Igreja;
- Recebemos o Espírito Santo.
O baptismo não é apenas um rito do passado, mas uma vocação permanente: viver como filhos amados, chamados a reflectir Cristo no mundo.
Um chamamento a viver como baptizados
Celebrar o Baptismo do Senhor é recordar que a fé não é apenas crença, mas vida entregue. Assim como Jesus iniciou a sua missão descendo humildemente às águas do Jordão, também nós somos chamados a viver a fé com coerência, serviço e amor.
Que esta festa nos ajude a:
- Redescobrir a grandeza do nosso baptismo;
- Renovar o nosso compromisso cristão;
- Escutar todos os dias a voz do Pai que nos diz:
«Tu és o meu filho amado.»
Porque nas águas do baptismo começou a vida pública de Jesus…
e também a nossa, como filhos de Deus.




